Por Dentro
Hortas em espaços alternativos.
É o Projeto Plantando na Cidade
Por Fátima Gonçalves

O técnico agrícola Marcos Victorino, da Faculdade Cantareira, desenvolve um projeto de hortas sobre telhas em espaços até então impensáveis para se cultivar verduras, legumes e frutas no espaço urbano de São Paulo como lajes, quintais, garagens. Bastam quatro horas de sol por dia e alguns cuidados básicos.
O Projeto Plantando na Cidade teve início há um ano, quando Marcos, estudante do curso de Agronomia da Faculdade Cantareira, com a experiência na implantação de mais de 2 mil hortas no estado de São Paulo, foi procurado por Paulo Meinberg, diretor do Colégio Jardim São Paulo, que, ao tomar conhecimento do currículo do técnico, decidiu pedir um projeto para implantar hortas nas unidades Cantareira e Jardim São Paulo do Colégio para crianças de 2 a 7 anos.

Victorino nos conta que, ao chegar ao local onde a horta seria implantada, teve de usar a criatividade, haja vista que seria difícil para as crianças manejarem a terra e as mudas e contratar uma pessoa para fazer esse trabalho impediria que as próprias crianças desenvolvessem a ação. “Como eu já tinha montado um projeto para cadeirantes em telha, propus que se comprassem telhas para que fizéssemos um sistema de canteiro elevado”, afirma o técnico, que teve liberdade para implantar o projeto.
Montada a horta, um segundo passo, foi levar as mudas prontas para plantar. “A criança não tem muita paciência de esperar as coisas acontecerem. E se usássemos sementes naquele momento, talvez o resultado não fosse tão positivo quanto o que estamos tendo agora”, afirma Victorino. A semente foi trabalhada em sala de aula na oficina intitulada Vamos acordar a semente. As crianças receberam cartõezinhos com sementes que elas mesmas colocaram dentro de um copo com água. A semente absorve a água e a semente germina. A criança, que é produtora desse processo, aprende e se interessa pelo trabalho.
As verduras e legumes que são produzidas na horta do Colégio são consumidos pelas próprias crianças. E elas até descobrem o quão saborosas podem ser as cenouras, rúculas, beterrabas, alfaces...
Segundo Victorino, são plantados “um pouco de cada coisa, alface, rúcula, rabanete, morango, manjericão. E as crianças ficam fascinadas com a produção. Elas estão aprendendo a produzir o próprio alimento, e ficam orgulhosas disso. Comem um rabanete, e é o melhor rabanete do mundo, porque elas plantaram”.

O custo de uma horta na laje de uma casa também é acessível. As telhas podem ser adaptadas a qualquer espaço em que haja incidência da luz do sol. Uma telha custa cerca de R$ 70,00. Além disso, é preciso comprar terra e sementes, cujo valor é baixo. Não é preciso nenhum sistema especial de impermeabilização, uma vez que a telha já tem essa função.
E até para as pessoas que não têm tempo de irrigar a horta durante o dia, Victorino inventou um sistema automático e barato, composto por uma mangueira, um relê de máquina de lavar roupa, que custa em torno de R$ 8 e um timer, de R$ 25.
Mas a telha é apenas uma das idéias. A criatividade não tem limites para quem deseja de fato plantar. Na horta da laje da Faculdade Cantareira há outros exemplos simples e funcionais: as hortaliças podem ser plantadas em baldinhos de prendedores de roupas, que podem ser pendurados nos lugares em que tenha sol, bacias, escorredores de arroz e também há o canteiro sobre rodas, que podem ser cultivados dentro de apartamentos pela facilidade com que podem ser transportados, sem qualquer esforço, para o lugar que tenha sol. O técnico acredita que essa é uma boa idéia para as pessoas da terceira idade, que podem ter, no cultivo da horta, uma ótima forma de ocupação, além, é claro, de tomarem sol também.

E o que torna ainda mais interessante o Plantando na Cidade é que, além de vários aspectos positivos diretos, a horta ajuda a combater o aquecimento global, grande preocupação neste início de século.
Conhecer a procedência dos alimentos que consumimos já é por si só um argumento bastante forte para que a horta seja desenvolvida em nossas próprias casas. Mas os pontos positivos vão muito além.
Combates a ilhas de calor, menor emissão de carbono, educação ambiental e controle de pragas sem pesticidas, uma vez que a horta não está em contato com o solo, são alguns desses pontos. “As hortas ajudam diretamente na diminuição do aquecimento global. O CO2 está espalhado por toda a cidade e a planta necessita e absorve CO2. Sem contar que a terra absorve também o calor do sol”, explica o técnico. A incidência de luz solar é o único pré-requisito para o sucesso da horta. Em um ciclo de 45 dias, por exemplo, é possível produzir 16 pés de alface por metro quadrado. E a poluição atmosférica não torna esse alimento menos saudável? De acordo com Victorino, não. “A verdura, os legumes e as frutas que vêm para a cidade com agrotóxico, essa sim é prejudicial”.
O Projeto Plantando na Cidade está em fase de catalogação de dados científicos – os primeiros resultados indicam que rúcula e beterraba foram as variedades que melhor se adaptaram ao cultivo na telha. Houve, também, boas colheitas de alface crespa, alface roxa, almeirão e cenoura. De acordo com Victorino, “o rodízio nas plantações cria um microequilíbrio do sistema, que controla a incidência de doenças e pragas”. Os próximos passos do projeto contemplam a formação de uma grade de cultivo com o máximo possível de variedades, e uma pesquisa sobre as formas de captação e armazenamento de água da chuva.
Para desenvolver o Projeto, Marcos Vitorino foi buscar inspiração no passado. Segundo ele, “pesquisei iniciativas desenvolvidas na Europa e Estados Unidos entre o final do século XIX e início do XX. Naquele momento, a migração da população para os centros urbanos provocou uma crise na oferta de alimentos e forçou a criação de hortas comunitárias, como um meio de amenizar o declínio da produção agrícola”. E tudo foi apenas uma questão de adaptação aos dias atuais.
Marcos Victorino e o canteiro de rodinha